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Ao longo de nossas vidas procuramos métodos eficazes ou simplesmente maneiras agradáveis de viver a vida da melhor maneira possível. Pensando desta maneira resolvi criar uma cartilha do bom e do mal entendedor para a prática do bem-viver. Bom, talvez não tenha tantas dicas assim a ponto de pô-las em uma cartilha. Ah, sei lá. Mas pelo fato de existir alguma coisa a respeito já serve de alento. Assim sendo, você, leitor, homem, sabido, ou que pelo menos pensa ser sabido, poderá, de próprio punho, escrever tais dicas em qualquer canto de sua casa. Quer um exemplo? Atrás da porta do sanitário é ótimo para anotar o que tenho a vos dizer, ou se preferir, em qualquer parede da casa. Então, sem mais delongas, vamos a elas:
Dica nº 1: Ao acordar pela manhã, coisa que não precisa ser muito cedo, por que senão poderá caracterizar que você está com a idade avançada, e aí estes ensinamentos não adiantarão em nada, pois dedico esta cartilha, ou seja lá o que for isto, a jovens... Ã... Continuemos então; onde foi que parei mesmo? Ah, sim; assim que acordar não saia da cama. Aproveite melhor o que ela, a cama, tem a lhe oferecer. Mas se ainda assim quiser se levantar então faça, mas faça com dignidade e não lave o rosto quando for ao sanitário. Pude comprovar ao longo de minhas experiências que tal atitude agride demais a pele. Por conseguinte, agride também o magnífico despertar do ser humano para o dia que o espera. Além do quê, agride com violência os pensamentos, ainda que sejam turvos e pueris.
Dica nº 2: Procure abolir a prática de dizer Bom Dia aos outros. Por quê? De que adianta isto? Logo mais tarde, a pessoa para qual disse "bom dia" inventará alguma mentira sobre você, ou até mesmo te xingará. No entanto, se a sua educação insistir nesta bobagem, faça isso só se for para melhorar o seu próprio dia. Neste caso faça diante de espelhos.
Dica nº 3: Ao fazer o desjejum procure não comer demais, ainda mais se tiver o hábito de acordar tarde, ou adquiri-lo depois que ler estas dicas. E o motivo é simples, para não dizer, óbvio; na hora do almoço poderão conter pratos dos quais você gosta. Mas, se por um acaso não tiver nada de bom para comer, procure furtar algumas frutas, iogurtes, bolachas ou qualquer coisa que tenha na cozinha para saciar sua fome. Se bem que, para o bon vivant não existe a palavra fome, e sim, apetite. De qualquer forma procure ser mais esperto, por que senão outro que mora com você certamente será.
Dica nº 4: Se por um acaso der vontade de sair às ruas para passear simplesmente, não se envergonhe disto, pois é normal tal vontade. E se ainda, neste passeio, der vontade de se embebedar, siga em frente com seu plano. Não há nada de bom em passar vontades. Porém, se você for daqueles que gostam de entornar canecos tome cuidado. Seja precavido. Anote num pedaço de papel seu nome, endereço, telefone (seu, de parentes, de amigos e de quem mais vier em sua mente, ainda sóbria), mais um dinheiro para voltar de táxi. Mas não fique chateado se os teus familiares, amigos, ou seja lá quem mais, não quiser te receber em casa. Às vezes tal reação é normal.
Dica nº 5: Quando for passear no centro da cidade e algum engraxate quiser engraxar seus sapatos não se faça de rogado. Deixe que ele tenha o prazer de te fazer um agrado, ainda que você só use tênis. Agora o importante é não mostrar os dentes para essa gente. Isto poderá significar fraqueza da tua parte. E se, por um acaso, o tal engraxate pedir algum dinheiro pelo serviço, finja procurar pelos bolsos. Certamente ele entenderá se você disser que não tem trocados para lhe pagar. Agora, se não entender o teu lado e começar a gritar, e a se espernear, e a gritar, se faça de desentendido e caia fora desta situação vexativa o quanto antes. Não costuma ser bom o resultado de um enfrentamento como deste tipo.
Dica nº 6: Ao encontrar com amigos, os verdadeiros de preferência, procure ser sincero. Mas não seja muito sincero senão poderá perder tais amizades, pois sabemos que nem todos têm estrutura psicológica para entender todas as sinceridades. Além do que eles são muito poucos circulando por aí, no entanto com muita paciência para te agüentar.
Dica nº 7: Quando for escalado pela "patroa" para ir ao mercado ou à feira fazer compras, uma inocente desculpa de que você não pode ir naquele momento não faz mal a ninguém. Mas se for fazer isto mesmo faça de maneira convincente, e tenha uma boa desculpa para dizer à ela de que não irá nestes lugares, por que se ela descobrir que isto é apenas pretexto para cair fora das obrigações, ou seja lá que nominação se dá para estas besteiras, o cabo de vassoura poderá cantar na tua cabeça, ou arder no teu lombo.
Dica nº 8: Compre pães de vez em quando. Isto não afetará sua masculinidade como dizem por aí. Mas lembre-se de levá-los para casa, claro. Sua senhora sentirá orgulho desta atitude. Logicamente que isto lhe renderá créditos para dar as famigeradas escapadelas com direito às bebedeiras de praxe com os amigos e fazer feio no boteco. Daí a importância de cultivar amizades. (Vide dica nº 6).
Dica nº 9: Se você for convidado para assistir televisão na casa de algum conhecido, seja categórico e diga-lhe que não poderá naquele momento, seja qual for o momento, é mister que se evite tais convites. Comentários ferinos poderão surgir a respeito da programação assistida. E muitas pessoas poderão não entender teu ponto de vista sobre o maldito programa de tevê.
Dica nº 10: Festas de aniversários são sempre bem-vindas. Porém, saiba selecioná-las para não entrar em apuros. As melhores são as infantis por revelar as fantásticas quituteiras perdidas no bairro onde você mora. Contudo estas festas são um inferno. Crianças correm de um lado para outro até que uma delas tropeça nos teus pés e se arrebenta adiante. Notadamente perceberão que você não teve culpa, mas ficará marcado pelas mães dos pestinhas pelo resto da festa por alguma razão que desconheço. Já as festas de adultos não tem esta gritaria peculiar que a anterior possui, nem incessantes correrias, nem doces largados na cadeira aonde você vai se sentar. Por outro lado nesta não tem nem doces nem salgados decentes. Tudo vem de uma empresa qualquer, e feita de qualquer jeito. Em compensação tem bebida grátis e música que pode soar decente nos ouvidos. Qual o lado ruim disto? Precisa-se engessar a cara com um belo sorriso amarelo e fingir que está tudo bem. A sociedade gosta de ver pessoas com sorrisos amarelos.
Bom, poderia eu aqui ficar escrevendo mais algumas dicas para vocês, mas já estou me aborrecendo com esta história toda. Mesmo por que preciso urinar, tomei cerveja demais. Minha bexiga está a ponto de explodir. E desta maneira não consigo me concentrar. Então, neste exato momento, traçarei o melhor trajeto de como chegar ao sanitário sem derramar urina pela casa. Mas também se urinar pela casa não é culpa minha. Aliás, nunca é. Mas tudo bem, isto não vem ao caso agora. Até a próxima semana.
As pessoas depois que leram as minhas dicas ficaram assim, sorridentes. Agora falta saber se ficaram contentes ou abobadas. Oiram Bourges - 17:26 para cima
Terça-feira, Agosto 22, 2006
Todos já perceberam como estão o rádio e a televisão nesta época, uma chatice sem tamanho por causa das propagandas dos candidatos a presidência, a governador, a deputado federal e estadual. Ainda sou eleitor, claro, e por isso tentei por uns poucos dias assistir a esses programas gratuitos que, na minha opinião, deveriam ser pagos para ser veiculado nesses meios de comunicação, porque daí talvez as coisas fossem feitas com mais seriedade. Coisa que até agora não vi, nem dos candidatos considerados sérios, muito menos daqueles que não tem nada haver com a ocasião.
Bom, o caso foi que acabei assistindo uma coisa dessas, e não gostei do que vi. Muita palhaçada é dita nestes horários destinados a coisa séria. Na verdade até que gostei, mas foi justamente das palhaçadas ditas, pois me fez passar as horas de maneira tranqüila. Rindo até, de quando em quando, principalmente assim que vi os presidenciáveis com suas promessas furadas, onde, logo nos primeiros dias de propaganda, um candidato desmoraliza o legado que um outro, do mesmo partido inclusive, acabou deixando para o populacho num passado não muito distante. Isto é a guerra pelo voto, não importa o que se diz para convencer os desmiolados e ignorantes que se engessam diante do aparelho de TV para assistir às incessantes novelas e os telejornais que, ao invés de explicar uma notícia confundem ainda mais as mentes fracas dos ditos "orelhas secas", ou os "bocas de burro". Mas infelizmente esta classe não tem culpa, pois tudo isso faz parte da estratégia dos que estão no poder; confundir é melhor e mais fácil do que explicar tudo direitinho. Promessas fazem o candidato ganhar, e mostrar o trabalho realizado não dá garantia de vitória.
Contudo, não estou hoje para expor meu ponto de vista em relação à política. Estou aqui é para contar o que me aconteceu de interessante, ou divertido, ou curioso, ou... Sei lá. Deixe-me seguir em frente com esta narrativa então. Estava eu pra lá de despreocupado em relação à vida ou qualquer outra coisa que exista na face da Terra quando escuto a campainha tocar. Certamente não fui atender. Não sou homem para perder meu tempo com atendimento de portas. Deixo esta atividade enfadonha e sem graça para as outras pessoas. Meus familiares, por exemplo.
Após muito tocar esta maldita campainha alguém se indignou em atender a maldita porta; era meu cunhado. Aquele pseudo-inglês. O sujeito tinha ido até em casa para me convidar a um imbecil e inútil passeio pelas plagas que nos rodeiam. Eu, por incrível que pareça aceitei. E lá fomos nós flanando pelas calçadas tortuosas como nossas adoráveis caras de tédio. Eu com meu chapéu todo estiloso, e ele, metido que só ele sabe ser, usando um chapéu coco além da bengala com cabo de madre-pérola. Tudo para fazer inveja a quem quer que fosse. Se bem que hoje em dia ninguém mais sente inveja de tais adereços. Em todos os casos lá estávamos nós tropeçando pelo caminho.
Lá pelas tantas passamos em frente a uma loja que dizia no anúncio da placa tratar de todos os problemas existentes no nariz. Que faziam desde limpeza com higienização completa até tratamento de beleza com direito a polimento e borrifadas de aromatizantes, além do embelezamento com purpurinas coloridas. Logicamente pensamos que fosse brincadeira. E crentes de que fosse isso mesmo adentramos na loja para ver que tipo de brincadeira era aquela. O proprietário era o senhor Angus O' Nareba; sujeito velho, barrigudo e narigudo... Muito narigudo. Então, continuando, aquilo que tinha entre seus miúdos e infantis olhos azuis parecia ser uma grande batata a ponto de brotar pela face enrugada, oleosa e carunchada que se encontrava perdida em meio a uma cabeleira vermelha, esbranquiçada e desgrenhada. Bem coisa de irlandês doidão. Falando em irlandês, assim que meu cunhado viu o velho arrastando a pança e o nariz pelo chão do imóvel começou com a zombaria. Bem coisa de inglês mesmo.
No entanto, a coisa ficou feia. Houve trocas de ofensas, tapas, puxões de cabelos e tudo mais, bem coisa do povo celta e do povo viking mesmo. E antes que meu cunhado matasse o velho à base de bengaladas no nariz, e o velho matasse meu cunhado à base de canecadas de chope eu puxei meu quase parente pelo colarinho até sairmos da loja. Não queria servir de testemunha para lado nenhum nesta peleja. Odeio confusão deste tipo. E após toda esta confusão resolvemos voltar para casa. Caminhar pelas ruas já estava chato demais, ainda que depois deste episódio eu começasse a rir da cara de meu cunhado. Coisa esta, aliás, que o deixa colérico. E isto o torna ainda mais engraçado.
Contudo, o fim estava por vir, e em grande estilo. Quando chegamos em casa havia um grupo de manifestantes usando placas, faixas, canções de protesto e outras coisas mais que me deixaram emputecido, e ao mesmo tempo lisonjeado, por pedirem para que eu participasse das eleições como deputado estadual ou federal, governador, ou até mesmo como presidente. Porém, disse-lhes que isso seria de... De... De dar no saco. Que não queria isso para minha vida. E depois de ter dito isto mandei todo mundo à merda por que estavam atrapalhando o trânsito na rua, além de me deixarem com dor de cabeça. E se por um acaso a polícia aparecesse para averiguar que tumulto era aquele mandaria prender todos que lá estavam. Realmente falando, não gosto de tumultos.
Oiram Bourges - 23:59 para cima
Sexta-feira, Agosto 11, 2006
Procurando por novas aventuras estava eu, com meus pensamentos voltados não sei para qual lado do mundo andava pelas ruas até que me encheu o saco disso tudo. Cansado de andar a manhã inteira, que começou às 10h e terminou às 11h25, estava pronto para tirar a tarde para descansar no sofá, ou na cama, ou na mesa da sala, ou até na minha destemida e horrorosa poltrona. Aquela que sempre me acompanha desde quando o Brasil passou a ser comandado pelos militares, mas isto não importa neste momento, nem a maneira que tal móvel chegou até mim, pois isso era coisa dos militares da época.
Então, depois que decidi em que lugar sentar tirei os sapatos e, apoiados com meus pés nas costas do cachorro deixei-os descansar enquanto este animal estúpido, lambão e desorientado emocionalmente, porém fiel, também descansava. Fazia bastante calor por esses dias, principalmente neste dia do qual estou narrando. Por isso resolvi pegar umas latas de cerveja para melhor passar minha tarde. Assistir aos programas que passavam na tv não estava nos meus planos, mas na falta de coisa melhor para fazer tive de me contentar com as porcarias que passavam no momento. Logicamente que não pude agüentar por muito tempo. Primeiro por que a vizinha do andar de cima não parava de arrastar aqueles malditos móveis, e segundo por que a programação é imbecil demais para qualquer ser humano suportar. Se bem que existe imbecil demais no mundo, e assim sendo, os programas que passam são ideais para essa gente.
Os fracos adoram ver os outros fracos mostrando suas fraquezas, por isso, imbecis assistem programas que também são imbecis. É justo. Mas que bosta! Odeio tudo isso. Veja só: nem a cerveja estava descendo bem desta vez. Havia algo de errado com a bebida, ou com meu paladar. Não sabia ao certo dizer o que era. Por isto ou por outras coisas que também não sabia dizer o que me causava indignação, resolvi ganhar as ruas. Talvez fosse melhor espairecer a mente com um pouco de ar... Abafado, seco, pesado e poluído. No entanto não me deixei acabrunhar com tais interferências, acendi um charuto e pus-me a caminhar tranquilamente por aqui e por ali sem que houvesse tempo para enfiar pensamentos absurdos em meu baú mental, ou na minha cachola, como queiram.
Acontece que a diversão é algo que não podemos ter sempre, mesmo por que é difícil de encontrar motivos para tanto, pois a maioria das pessoas são aborrecidas e mal-educadas, além de burras, tem um outro tanto de pessoas que são apenas burras. Agora, o tanto seguinte, o que restou, são bem agradáveis mentalmente falando, porém, acabam encalhando no quesito educação. Sentem-se donos da verdade, além do quê, enquanto falam com alguém, qualquer pessoa, imaginam-se como se estivessem no alto de alguma montanha e cuspindo para baixo, para acertar nas cabeças alheias. Só por pirraça. Portanto não devemos depender delas para nos divertir. Sendo assim, procuro evitar contato com pessoas ditas almofadinhas, aborrecidas, mal-educadas e burras. Como tenho raiva de gente burra. Tenho até vontade de apagar meu charuto no olho de alguém que pertença a esta raça altamente execrável.
Bom, mas enquanto fico aguardando poder apagar meu charuto no olho de alguém sem que isso me cause problemas vou por aí, caminhando pelas calçadas e pelas ruas atrás de um bar decente onde eu possa encontrar pessoas também decentes para se trocar idéias, ou qualquer outra coisa, desde que decente. Sabe; sinto falto do bar do Odil e de meus amigos, mas como não sei onde fica nem o bar nem a casa de cada um deles tenho medo de me perder pelas localidades. Pelo menos por ora. Dentro em breve, e espero que seja mais breve do que o breve costuma ser, saberei me localizar neste novo bairro, cujo nome ainda não consegui descobrir. Mas tudo bem, isto não é uma coisa que me faça perder a cabeça.
Tem vezes que perdemos a cabeça por algumas coisas que... sei lá. Desta vez me irritei com pessoas burras, e mal-educadas. Coisa que no final dá na mesma. Ah, mas afinal quem se importa com isso mesmo. Sabe, às vezes temos a impressão que procuramos trocar idéias com seres que não existem ou... deixa pra lá. Oiram Bourges - 10:25 para cima
Quarta-feira, Agosto 09, 2006
Em busca de rumos saí de casa numa tarde dessas. Frio, fazia um pouco de frio sim. Ventava gelado na tarde em que resolvi me aventurar pelas ruas desconhecidas que compõem o bairro de minha nova morada. Nada mal, pensei. Encontrei duas panificadoras, uma quitanda, da qual se extorque até os últimos centavos de nossas algibeiras puídas, várias clínicas onde podemos ver, em uma simples tarde, dúzias e dúzias de velhos fazendo filas para se consultarem com os médicos que lá atendem. Além dos vários estacionamentos feios e mal estruturados com seus manobristas inexperientes que só fazem barberagens, e cometem os absurdos mais absurdos que se pode ter conhecimento. Logicamente que há, em todas essas ruas, um monte de maloqueiros que se auto-intitulam guardadores de carros. Normal.
Agora o mais importante para um bairro não é nada disso. O item mais importante para mim, e que compõe um bairro é certamente um boteco. E como estava conhecendo os lugares resolvi adentrar num dos infindáveis estabelecimentos maravilhosos desses que estão espalhados por todos os lugares. Então lá estava eu sentado num daqueles horríveis banquinhos de bar, olhando para vários pontos do ambiente, mas sem fixar o olhar em nada. E para completar esta cena estúpida pedi uma dose de cachaça ao leão marinho que estava atrás do balcão. Digo leão marinho por que parecia mesmo; um sujeito barrigudo, alto, com olhos miúdos e inexpressivos, que aparentavam estarem tristes ou mortos por serem divididos pelo nariz horrivelmente avantajado e vermelho. Ah, a voz do tipo estranho era algo muito estranha também, fazia jus ao porte do dono dela. Agora o bigode... O bigode era de lascar. Volumoso feito dois espanadores de pluma, um para cada lado obviamente, e ainda, comprido feito cipó.
Veja; pedi a tal cachaça mas não bebi, dei tudo para o santo. Quando veio o copo da bebida esqueci até de mencionar a vocês, mas o pequeno e quase insignificante bigode do tal barman estava embebido no meu pedido, como se fosse para melhor conservação das cerdas de seu adorno corporal. Já digo corporal por que realmente aquilo chegava a esconder o corpo de qualquer um. Parecia até uma saia daquelas havaianas que dançam hula-hula. Bom, caso este que não me apeteceu em dar uma bicada sequer no copo, que, aliás, estava todo engraxado. Parecia que tinha saído de uma churrascada ou algo parecido, de tão engordurado que se encontrava. Diante desta situação o homem, ou o barman, ou o leão marinho olhou para mim e, como se tivesse imaginando que eu não fosse pagar a conta sacou de mais um copo engordurado e pôs no balcão. Olhou-me friamente nos olhos sem dizer uma palavra sequer, depois esticou um de seus braços grossos e extremamente peludos para trás e pegou a garrafa com a mesma cachaça que eu havia pedido.
Bom, para resumir esta história grotesca; serviu-se de três ou quatro doses caprichosas sem abrir o bico para dizer um "a". Assim sendo me levantei com cuidado daquele banquinho que insistia em me derrubar, pelo fato de estar totalmente bambo, e fui-me embora em busca de coisa melhor. Ora, para completar esta enfadonha descrição acabei me perdendo no bairro só para variar. Como não sabia o nome da rua onde passei a morar, nem o número do telefone de casa pois ainda não temos uma linha telefônica, fiquei andando de um lado para outro até que cheguei num outro bar. Lá eu bebi umas doses de whisky e cachaça, conversei com bêbados, bêbadas e simpatizantes, crianças que iam lá para comprar bolinhas de gude e fios químicos, maridos e esposas indignados em ver seus respectivos cônjuges se afogando na bebida, e também conversei com quem mais estivesse por lá. Além de ouvir um disco inteiro do Fairport Convention numa juke-box velha. Para finalizar de vez com esta aventura, alguém, que não lembro quem, me levou para casa. O resto dos acontecimentos já é conhecido por vocês.
Talvez pareça sugestivo, ou simpático, tomar uns tragos com um sujeito desses para quem o olha pela primeira vez, mas depois que fica perto dele por um tempo tal vontade acaba se perdendo rapidamente.
Oiram Bourges - 23:50 para cima
Lá estávamos nós, um dia antes de amanhã, e um dia depois de ontem e depois de anteontem, eu de um lado, no meu novo apartamento, e do outro lado o tal vizinho imenso de gordo. Ambos debruçados na janela e se olhando. Talvez esperando que as crianças resolvessem sair no pátio para começarem a seção de tapas, socos, arranhões, pontapés e xingamentos entre eles mesmos. Estava tudo bom, não tinha sol... Queimando minha retina, ainda. O prédio do gordão estava fazendo sombra naquele momento. Então abri a geladeira e peguei uma lata de cerveja, pois estava bem quente na área de serviço. Local este em que me encontrava. E posso dizer com certeza que é o pior lugar para alguém ficar; apertado a ponto de dividir espaço com a máquina de lavar roupas, o tanque, os armários que guardam um monte de bagulhos e o monte de vassouras. Além de quente, claro. E para completar esta horrível lista, posso admirar, sempre que quiser, a visão panorâmica de um gordão e seu bigode de espanador debruçado no peitoril da janela.
Assim sendo olhei para aquela mancha enorme espalhada na janela do vizinho, que por sinal era o próprio vizinho fazendo o mesmo que eu, ou seja, nada. Bom, talvez existisse aí uma pequena diferença, a lata de cerveja que havia aberto. E continuávamos nós ali, firmes de fortes sem fazer absolutamente nada, apenas estancados cada um em sua janela parecendo dois gárgulas. A diferença que um era muito experiente, bem vivido, mal-humorado e bonitão, por exemplo, eu. E o outro que era gigante, e que não cabia nele mesmo, e que não se mexia nem para peidar. Coisa esta que por sinal era bem barulhenta. E quando acontecia uma dessas barbaridades a vizinhança toda saía na janela para reclamar. Muito chique esta situação; ver de camarote uma ópera bufa.
No entanto tive de sair imediatamente da janela da qual estava. E isto por motivos óbvios. Como estou morando agora perto do aeroporto um avião se preparava para aterrissar. Sendo assim ele baixou o trem de pouso e veio na direção do prédio, que fica entre seu objetivo e ele. Então aquilo veio baixando, baixando e baixando até que entrou na janela da área de serviço do meu apartamento e saiu pela sala acompanhado de um som ensurdecedor. Além da ventania que, se eu não estivesse bem agarrado não sei onde, teria ido junto com ele. E assim que me levantei para ver o estrago acabei vendo o gordão e seu bigode espalhado, tipo espanador, esparramados no sofá, ambos tirando um cochilo. Vai ver já está acostumado com esses absurdos.
Bom, quanto às crianças; não apareceram nesta semana. Talvez estejam se curando das escoriações sofridas na semana passada, ou qualquer coisa parecida. Só sei que estou me sentindo abatido, mesmo tendo algumas novidades para ver. Mas quem sabe eu me anime para sair passear mais tarde ao redor da quadra onde moro. Ainda não me aventuro a me desgarrar por aí, tenho um pouco de receio de me perder e coisa e tal. Por aqui tudo parece ser hostil; a vizinhança, os prédios, os vira-latas e os carrinhos de pipoca. Todos parecem estar sempre me vigiando. Até os malditos pombos que cagam nas capotas dos carros mal estacionados em cima das calçadas. Porém, esta história de pombos deixarei para outra oportunidade, se assim convier. Portanto, creio que seja isso. Até a próxima.
Este aqui é o pai de uma das crianças que costuma se estapear com uma outra que mora sei lá onde quando as tardes ficam quentes e insuportáveis.
Oiram Bourges - 23:32 para cima
Estava eu no meu novo lar tranqüilamente enquanto via tudo, digo, nada acontecer, só para variar. É, bairro novo, prédio novo... Quero dizer, nem é tão novo assim, ruas novas, pessoas diferentes, incluindo aí nesta lista de novidades as fofoqueiras que, além de serem novas, são diferentes e são inusitadas. Por que são inusitadas? Oras! Fofoqueiras sempre são inusitadas. Bom, a panificadora diferente que faz coisinhas boas para nos fazer engordar, e, por outro lado, minha vida que não sofreu grandes transformações. No entanto, como é tudo novo eu posso andar de pijama e chinelo na rua que ninguém vai reclamar. E também, se reclamar, não estou nem aí para as reclamações. Mesmo por que ninguém me conhece neste lugar mesmo. Portanto, se quiserem falar que falem.
Bom, depois que o pó assentou depois da mudança que nos deixou muito cansados, e estressados, e esbaforidos, e alucinados, e envenenados, e enfurecidos e envelhecidos de tanto que andamos de um lado para outro sem parar no apartamento e na garagem do prédio antigo, e depois no pátio, na garagem e no apartamento do prédio novo até que ficamos exaustos, enrugados, carunchados, enfadados e embotados. E ainda assim não conseguimos organizar tudo como deveria. Há coisas espalhadas por todos os cantos do apartamento ainda. Caixas e caixas de sapatos em cima da mesa de jantar, uns três ou quatro jogos completos de dentaduras na parte do congelador na geladeira... Não sei fazendo o quê, e mais uma sacola de inutilidades femininas que vez por outra é chutado da sala para o banheiro, do banheiro para um quarto, deste quarto para outro, e assim por diante.
Claro que a lista de nossas coisas não se resume apenas nessas que acabei de citar, tem muito mais porcaria que qualquer um consegue imaginar. Porém, já conseguimos dar um jeito nisso. Um pouco conseguimos guardar nos seus devidos lugares, um outro pouco foi oferecido entre nós mesmo para ver se um queria o objeto do outro e vice-versa. De mim ninguém quis nada... Tudo bem, é uma opção deles, mas também não quis nada de ninguém. Minhas coisas são muito melhores que de qualquer outra pessoa. Bom, o restante das coisas foi levado em caixas pelo porteiro, pela síndica, e por uma dúzia de crianças para a rua, para quem quisesse levar as coisas mesmo... Passaram-se três dias e ninguém levou nada ainda das 38 caixas espalhadas pela calçada. Sei disso porque tenho acompanhado a movimentação das pessoas que transitam pela região.
Veja só as coisas; ontem foi o quarto dia que estava em novo lar e já vi umas coisas que me fizeram alterar de humor variadas vezes. O vizinho de cima adora arrastar a mesa de um lado para outro. Não obstante arrasta as cadeiras também. Parece até com alguém que conheço... Depois vou perguntar se o nome desta pessoa não é Azambuja... Ah, não é. Sei onde ele mora. Continuando; não contente com a posição escolhida ele, ou ela, sei lá, trás de volta toda a mobília de onde tirou. E isso fica praticamente o dia inteiro. Já o vizinho do andar de baixo gosta de martelar, de vez em vez ele saca de sua ferramenta e taca-lhe na parede, ou no forro, ou no chão, ou na cama, ou no vidro... Um verdadeiro doidivanas. Isso realmente me deixa enfurecido, isso me tira do sério.
Por sorte tem coisas que me fazem rir entre uns absurdos destes, ontem na parte da tarde estava eu andando pelado pela casa, pois, fazia muito calor, quando escutei uns gritos chorosos e infantis vindo de fora do prédio dizendo:
-- Ah, larga... É meu. Dizia um.
-- Ai! Larga... Pára de morder meu braço. Dizia o outro.
-- Ah, larga... É meu. Dizia o primeiro.
-- Ai! Larga... Pára de morder minha orelha. Dizia o segundo.
Enquanto se desenrolava este assunto tão cheio de argumentos avistei ao longe, numa das janelas de um prédio ao lado, aquele ser que, no meu ponto de vista era para ser o pai de um deles dizendo... Nada. Ele simplesmente não dizia nada. Era um gordo muito gordo... Na verdade era imenso, e que apenas observava as duas crianças se morderem, se estapearem, se degladiarem, se arrancarem, se chutarem sem fazer absolutamente nada. Logicamente que eu fiz o mesmo. Debrucei-me na janela a fim de ter uma visão melhor dos acontecimentos. Contudo não pude ficar por muito tempo pelo fato de que o sol estava queimando minha testa, meus ombros e minhas orelhas imperdoavelmente. Mas tudo bem, pelo jeito vou ter muitas coisas para ver no decorrer dos dias.
Os tapas ecoavam no vazio das garagens... um som parecido com os desmiolados e suas cabeças ocas batendo nas paredes.
Oiram Bourges - 23:27 para cima
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